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21/08/2006 11:26:12
TAPERA
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Antonio Francisco de Paula

 

Quem passar naquela estrada

Empoeirada de chão batido,

Barranco todo florido

Com a ramagem de São João,

Vai avistar lá na baixada

Uma tapera abandonada

Na beirada de um capão.

 

À direita de quem chega,

Entre as sombras das palmeiras,

A porteira de tronqueira

Ao relento escancarada,

Onde não se ouve mais

Tropel de cascos de baguais

Nem mugido de boiada.

 

Nem o grito da peonada,

Nem rangido de carreta,

Nem  tilintar de rosetas

Das esporas da bugrada,

Nem badalo de cincerro,

Nem os berros dos bezerros

No silêncio das madrugadas.

 

Nem latido de cachorros,

Nem aboio de tropeiros,

Nem relinchos no potreiro

Da tropilha abagualada,

Nem estalo de açoiteira,

Nem estampido de cartucheira

Nas encostas da invernada. 

 

Bem na frente do terreiro

Com o tabuado carunchado

A mangueira grande sem gado

Ainda resiste os janeiros,

Ao lado de uma cocheira

Rodeada de costaneira

Onde dormiam os terneiros.

 

Entre o valo e a paineira

Os coqueiros e o alambrado,

O chiqueiro esburacado

Divisando com o galpão,

Meio torto e destelhado

Com os esteios oitavados

Escorando o travessão.

 

Entre meio o arvoredo,

Lá no fundo do quintal,

O engenho velho de pau

Com as moendas desdentadas,

A fornalha de tijolo

E as peças do monjolo

Enterradas na palhada.

 

E debaixo da figueira,

Junto aos trastes amontoados,

A carroça sem rodado

Com o eixo corroído,

Amarrados entre os fueiros

A cangalha e o cargueiro

E um corote ressequido.

 

Lá no canto da cozinha,

Assim meio atravessado,

O fogão de lenha barreado

Chamuscado de tição,

Com a chapa enferrujada

Sobre a taipa desbeiçada

Envernizada de carvão. 

 

Entulhados na despensa,

Entre os vãos da prateleira,

A cambona preta e a chaleira

E os avios do chimarrão,

E na mesa debruçado

O tacho de fazer melado,

A gamela e o pilão.

 

A varanda e a sala

Com o assoalho desgastado,

O candeeiro enfumaçado

Em riba da cantoneira,

E, no quarto, estendido

Um couro de boi curtido

Sobre um catre de madeira.

 

Patrício, como é triste

Olhar para aquela tapera

Com as paredes amarelas

Carcomidas de cupim,

Janelas e portas fechadas

Com a soleira e a calçada

Encobertas de capim.

 

Num adeus de despedida

Vou repontando lembranças

Da minha querida infância,

A morada onde nasci,

Chego até ouvir o lamento,

Resmungo do próprio vento,

Que eu nunca esqueça de ti!

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  Autor: Antonio Francisco de Paula
Poesia enviada Por: Antonio Francisco de Paula - Brasília / DF
  Observações: A poesia foi classificada em 1º lugar no ano de 2001, no 9º FEGARP, realizado no CTG Sinuelo dos Gerais, da cidade de LUIZ EDUARDO MAGALHÃES-BA.

 
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30/05/2008 17:56:09 luis carlos santos - Ponta Grossa / PR - Brasil
Muito bonitas todas as poesias que tive oportunidade de ler do Sr. Antonio. Caso tenha interesse em divulga-las atravéz da música, temos interesse. Avise-nos em lucafes@gmail.com. Obrigado. Luis Carlos . Tropeiros da tradição. Ponta grossa . Paraná.
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