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Sina de Andejo, de Régis Marques

 

21/08/2006 11:29:50
QUERÊNCIA DE SEPÉ
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Maria Beatriz Magalhães dos Santos

OLHANDO AS RUÍNAS DE PEDRAS,
PEDAÇOS DE NOSSA HISTÓRIA,
POSSO ATÉ VER NOSSA GENTE
PELEANDO NA POLVADEIRA,
DE LANÇA FIRME NO AR.
ESCUTO O ECO DAS VOZES
QUE OS INVASORES ATROZES
NÃO CONSEGUIRAM CALAR.

E VOU TROPEREANDO O TEMPO
COM A MENTE SEM ALAMBRADO,
OUVINDO A VOZ DAS TAPERAS
QUE CONTAM VELHOS SEGREDOS
DO NOSSO HERÓICO PASSADO;
QUE FALAM DE TIARAJÚ,
DA BRAVURA DO XIRÚ
EM DEFESA DESTE PAGO.

SE AGIGANTAVA NA LUTA
SUPERANDO AS DIFERENÇAS,
MANTINHA O SEU POVO UNIDO
EM TORNO DA MESMA CRENÇA.
GRANDE CAPITÃO SEPÉ!
DE OLHAR DE INFINITO
E SORRISO MAIS BONITO
QUE OS CAMPOS DE CAIBOATÉ.

MESMO EM MEIO DA GUERRA,
HOUVE ESPAÇO PRÁ UM CAMBICHO
DE SENTIMENTO, AINDA CHUCRO,
E CORAÇÃO RETOVADO,
PRONTO A DESOBEDECER.
O ÍNDIO, FILHO DA TERRA,
PERDEU A RAZÃO DA GUERRA
NO CAMPO DO BEM QUERER.

JUSSARA  –  FLOR MISSIONEIRA!
DE LARGO SORRISO MANSO,
TRAZIA, NO OLHAR, A  PAZ.
E O BRAVO GUERREIRO FORTE
UM GRANDE AMOR VIU BROTAR,
COMO A FLOR DA MAÇANILHA
QUE CRESCE PELAS COXILHAS
SEM QUE PRECISE PLANTAR.

GASTOU SUA VIDA LUTANDO,
COMO OS HOMENS DO ALÉM MAR.
E NUMA VIL EMBOSCADA,
NO  FINALZITO DA TARDE,
O HOMEM, DEUS DE CORAGEM,
AO LADO DE SEU CAVALO,
DO DESTINO LEVOU UM PIALO.
FOI FAZER A GRANDE VIAGEM...

LIVRE, COMO O QUERO-QUERO,
LENDÁRIO GUARDIÃO DA TERRA,
SEPÉ RECUSOU O BUÇAL...
E QUANDO VIU NO HORIZONTE
O SEU ÚLTIMO POR-DE-SOL 
MONTOU NO LOMBO DO VENTO
LEVANDO, NAS MÃOS, O TEMPO,
FOI MORAR NOUTRO ARREBOL.

A NOITE DESCEU O MANTO
SOBRE A TERRA DAS MISSÕES.
E A LUA, CHINA FACEIRA,
QUE VINHA, SEMPRE, BANHAR-SE
NAS ÁGUAS DO URUGUAI,
ESCONDIDA ATRÁS DA MATA
NÃO MANDA CHUVA DE PRATA;
FÁZ BIRRA E DE LÁ NÃO SAI.

O ÍNDIO, BRAVO GUERREIRO,
TRANSCENDEU A PRÓPRIA MORTE
E FOI MORAR NOUTRA INVERNADA.
À NOITE, DEPOIS DA RONDA,
NO CÉU, ONDE É POSTEIRO,
SONHANDO COM A MADRUGADA,
NOS LÁBIOS DE SUA AMADA
VAI PROVAR DO MEL CAMPEIRO.

NAS AMPLIDÕES DA DISTÂNCIA,
ÀS VEZES VIAJA “SOLITO”...
EM SUAS REMANESCÊNCIAS,
DESENSILHANDO LEMBRANÇAS
QUE ABRIGA NO CORAÇÃO,
RECORDA ANTIGA QUERÊNCIA,
CAMPEREANDO NA CONSCIÊNCIA
TRÁZ MEMÓRIAS DO GALPÃO.

LÁ SE VÃO SEUS PENSAMENTOS
ATRAVESSANDO FRONTEIRAS.
ONDE ESTÁ SUA DESCENDÊNCIA?
ESTARÃO JUNTOS OU DESGARRADOS?
OU REMOENDO SAUDADES
NUMA SOLIDÃO ERRANTE;
ENTREVERADOS AOS PASSANTES,
VAGANDO PELAS CIDADES.

DESCANSA VELHO GUERREIRO!
TUA LUTA NÃO FOI VÃ.
DESFRUTA DESSE ACONCHÊGO,
RECOSTADO NO PELEGO
PODE MATEAR COM TUPÃ.

ESTA TERRA, AQUI, TEM DONO!
TEU GRITO AINDA SE EXPANDE.
SEMPRE, TU,  ESTARÁS  PRESENTE,
FEITO UMA ESTRELA CADENTE
CRUZANDO OS CÉUS DO RIO GRANDE!
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  Autor: Maria Beatriz Magalhães dos Santos
Poesia enviada Por: João Bosco Rondon Santos - Brasília / DF
  Observações: A poesia Querência de Sepé, de autoria de Maria Beatriz Magalhães Santos, foi classificada em 3º lugar, modalidade Poesia Inédita Feminino, no ano de 2006, no 14º FEGARP - Festival Gaúcho de Arte e Tradição do Planalto Central, evento realizado na sede do CTG Sinuelo da Saudade, situado no PAD-DF.

 
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14/02/2010 23:35:01 Ibani Jorge Bicca - Vera Cruz, RS / RS - Brasil
Parabéns, Maria Beatriz Magalhães dos Santos, pelo belo poema. Essa é a autêntica poesia crioula, com tema, ritmo, métrica e termos regionais. Um poema onde o tema é muito bem desenvolvido, com começo, meio e fim. Parabéns!!! Abraço!
Sítio: http://blog.clicgratis.com.br/tropenadoversos/
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