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Vamo rapaziada

 

28/08/2006 13:37:12
ENTREVERO
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Adenir Paz da Silva

Tomei um banho de sanga,
enfiei a pilcha no lombo,
nas botas um brilho de assombro,
me apetrechei de primeira,
guaiaca de cartucheira,
camisa branca engomada,
bombacha preta riscada, 
lenço de seda encarnado,
chapéu de aba tapeado
e adaga coqueiro afiada.

Pra disfarçar o bodum,
água de cheiro na cara,
na melena uma glostora
para afirmar o penteado.
Me olhei, estava aprumado,
faceiro como ganso em taipa,
fiquei virado num taita,
me enforquilhei no tostado
e saí desembestado
atrás de ronco de gaita.

Fiz caminho, cortei campo,
tinha pressa na chegada,
a noite enluarada
me convidava pra dança.
Imaginando a festança,
vislumbrei a luz dum  rancho,
em surungo eu me desmancho
no costado de uma prenda,
seja branca ou morena,
fui chegando de carancho.

Mas, dum jeito abagualado
me atacaram na soleira,
e eu senti uma coceira
no meu dedo fura bolo
em varar aquele olho
desse mulato gordacho
que, num olhar de mormaço
e sorriso debochado,
se oitavô para um lado
quando viu meu ameaço.

E Gritei! Buenas, indiada guapa,
não é preciso se assustar,
tenho pressa e vou entrar
pra encontrar as namoradas
que estão desesperadas
aí dentro me esperando.
Meti o peito e fui entrando,
ficaram trocando orelha,
ruminando como ovelha
e na paleta me marcando.

Corri os olhos na sala,
desde a porta aos quatro cantos,
a poeira era um manto
que encardia o ambiente,
me decidi e saí em frente,
no meio do nevoeiro,
como gosto de entrevero
peguei a primeira prenda,
e bailei com uma morena
no meio do formigueiro.                              

A gauchada rodopiava mais
que cusco atrás do rabo,
e eu ali abuçalado,
com aquele mulheraço
que suspirava em meus braços
no meio da polvadeira,
pois era tão grande a poeira
que, se mexesse na orelha,
saía um caco de telha
com forma de cumeeira.

O fandango ia embalado,
levantava a tabatinga,
era suor e catinga,
poeira se misturando,
e a indiada galopeando
como tropa de burro xucro.
Se ouviam gritos de truco
lá no fundo do salão,
e o ronco de um vanerão
deixava todos malucos.

Mas de repente amainou,
foi um silêncio forçado,
pois o diabo disfarçado
inticava a gauchada,
estouro virou zoada,
fandango virou inferno,
de verão ficou inverno,
fedeu a boné queimado,
era branco e era negro
brigando entreverado.

Tudo aquilo aconteceu
por causa de um angorá,
pois eu fui logo pisar
no rabo daquele gato
e a dona, mulher do mulato,
aquele da porta de entrada,
a jararaca só gritava:
“Onde anda o meu bichano”.
E a gentarada brigando
sem dar bola pra bruaca.

O salseiro estava grande,
era tiro era planchaço,
gritos e tinir de aço,
zunido de chumbo grosso,
era velho e era moço,
era tapa e era coice,
apareceu uma foice,
aí já foi covardia,
tinha nego que gemia
com uma cinta no pescoço.

Tinha um petiço de homem,
valente e metido a sebo,
dava de argola de relho
aproveitando a olada,
mas levou uma botada
bem no meio dos dois cachos,
que lhe amassou o cachaço.
Desabou, caiu  gemendo,
o berro de dor foi tremendo
e acabou-se o meio macho.

Um velho meio borracho,
armado com uma bengala
saltou no meio da sala
tentando apartar a briga,
riscaram o ancião na barriga
com um baita talho de faca,
que o gaudério tararaca
perdeu uns quilos de graxa,
murchou, caiu a bombacha,
cortaram até a guaiaca.

Eu não sabia se ria
ou tinha pena do velho
pois aquele índio gaudério
não atinava se acudia
a bombacha que descia
ou a graxa que escorria 
direto para o garrão,
e naquela indecisão
tropicou na sua maneia,
desabou – oigalê coisa tão feia! 
e deu de beiço no chão.

A coisa já estava preta,
o sangue lavava a sala,
e eu defendia no pala
peleando de mano a mano
com um índio castelhano
que me baixava o facão.
Negaceei, lhe enfiei a mão
bem no pé do ouvido,
que o pobre do indivíduo
até hoje pede perdão.

A morena em meu costado
pedia pra ir se embora,
achei chegada a hora
de aproveitar o embalo,
pois já tinha meu regalo,
o que mais que eu queria,
tinha que ir a la cria
levando a chinoca junto,
e fui pisando em defunto,
tinha morto que gemia.
                                           
Puxei a china no jeito
preparando a retirada,
fui abrindo uma picada
no meio do entrevero,
minha adaga abria o salseiro
tingida com sangue quente,
era grito e ringir de dente
pragas, choro e nome feio,
mas me enfiei pelo meio
e saí na porta da frente.

Caminhei com a chinoca
em direção do tostado,
mas tinha um taura amoitado
no escuro me esperando
e com o aço relampeando
se achegou-se e veio vindo
gingando o corpo e cuspindo
num balançar de taquara,
com um sorriso na cara
igual a um cusco grunhindo.

Engarupei a morena
e saí trançando ferro,
de cara já ouvi o berro,  
a adaga lonqueou o vivente,
que ouriçado na minha frente
fazia pose de gato
pegou rumo e foi pro mato
lanhado do nariz a orelha,
pois tinha nascido uma bicheira
no focinho do mulato.

Com a chinoca na garupa
dei de rédea e cortei campo.
A lua recolhia o manto,
o sol repontava o dia,
e eu na maior alegria,
que nem galo no poleiro,
deixei surungo e salseiro
e as peleias para trás.
Me juntei, não brigo mais,
não entro mais em entrevero!
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  Autor: Adenir Paz da Silva
Poesia enviada Por: Adenir Paz da Silva - Brasília / DF
  Observações: Poesia do Livro TRUBUTO AO PAYADOR, de Adenir Paz da Silva.

 
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