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Paixão Côrtes:
Gaúcho Velho

 

26/09/2006 12:49:58
ESPORA
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Antonio Francisco de Paula

 

Velha espora sangradeira

Da roseta grande afiada,

Esquecida, abandonada

Na travessa do galpão,

Com o garfo enferrujado

Cabrestilho rebentado,

Segura pelo gavião.

 

Ao te ver assim, solita,

Meio torta e desdentada,

Sem parceira, pendurada

Entre laço e maneador,

Cavalgando nos meus sonhos

Saio campeando o medonho

Do taura que te forjou.

 

Do peão gaudério atrevido

Que te prendeu no garrão,

Do boca funda redomão

Que recebeu o esporaço,

Da sala lisa de assoalho

Que levou o primeiro talho

Dos teus espinhos de aço.

 

Chego a ouvir tua cantiga

Se arranchando pela quincha,

Fazendo eco nas frinchas

da parede do salão;

Um retintim debochado

No compasso abagualado

De uma gaita de botão.

 

Por entre as franjas do pala,

Picando a saia das prendas,

Tirando voltas de rendas

Enredadas na roseta,

Saracoteando na sala,

Entre os pipocos de bala

De um índio vago sotreta.

 

Se embaralhando no chão,

Abrindo cova de touro,

Tirando pêlo com couro

Da canela da bugrada,

Se arrastando na poeira,

Que nem a caranguejeira

Rodeando pelas beiradas.

 

Nas rinhas e carreiradas,

Nos rebuliços de venda,

Entreverando em contendas,

Virada ao peito do pé,

Retalhando de alto a baixo

A cara de índio macho,

Metido a garnisé.

 

Grudada em tacão de bota,

Viajando junto ao estribo,

Entre o relincho e grunhidos

Da tropa de todo pêlo,

Tirando baldas e manhas

Cortou virilha e picanha

Dos teatinos caborteiros.

 

Na gineteada ou rodeio

Das campeireadas de estância,

Abria raias na pança

Dos crinudos aporreados,

E virando uma pirueta

Enganchava na paleta,

Tosando as crinas do rabo.

 

Maleva espora, tirana,

Régia cigana do pago,

Fizeste já muito estrago

Por este imenso rincão.

Mas por toda a eternidade

Serás sempre majestade

No trono da tradição!

 

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  Autor: Antônio Francisco de Paula
Poesia enviada Por: Antônio Francisco de Paula - Brasília / DF
  Observações: Poesia do Livro MEU AVÔ, MEU MESTRE - Poesias Gauchescas, do autor.

 
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