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Jayme Caetano Braun:
Sangue Farrapo

 

02/12/2006 15:09:41
RESQUÍCIOS DA VELHA CARRETA
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Paulo Moacir Ferreira Bambil

Bombeio a velha carreta
Ali como uma bruma enfunada
Em baixo do pé de bergamoteira
Transporte rude, porém brejeira
Solita e já despedaçada
Faltando os fueros de um lado
Servindo de poleiro da galinhada
Não te deram mais confiança
Ninguém cuidou daquela herança
Só de saudade estava carregada.

Da canga já fizeram lenha
Os guris não sabem o valor
Que tinhas pro teu senhor
A lança de guajuvira ainda existe 
Não sei como nem porque resiste
Aquele cambão longo e feio
Só sei que tu serves de esteio
Para evitar o balanço
De um caibro do meu rancho
Plantado mais ou menos no meio.

Os canzis que eram uns oito
Pra duas juntas de boi
Não sei pra onde foi
Mas acredito que nesse jogo
Também fizeram lenha pro fogo
Ou então nalgum capão de mato
Apodreceu sem saber-se o fato
Tiveram o mesmo roteiro
Os ajojos e os tamueiros
Simplificando este relato.

De encordoamento do catre
A regera estava servindo
Tinha um peão ali dormindo
Não pude ver se estava inteira
Pelas frestas da costaneira
Dava pra ver a massa do buque
Desvendando aquele truque
Olhando dentro de um balaio
Encontrei uma cambota sem raio
Embora a história não machuque.

A chapa larga e bem forjada
Fizeram de cinta da tina
Pra uma tuia da cantina
Na bodega do repecho
Aquela ali do seu Aleixo
Ficou uma espécie de tonel
Depósito do milho a granel
O buque em forma de pança
Era peso para o prato da balança
Também servia pra apertar papel.

A picana longa de bambu
Ainda resistia; não sei qual o segredo
Servia pra colher frutos do arvoredo
Os bornais do focinho dos bois
Têm estórias que contarei depois
E as tralhas de fazer bóia campeira
Estavam no meio das tranqueiras
Graxa patente dentro de um pilão
Recostado no esteio do galpão
Próximo do tronco da mangueira 

A saudade do teu rangido
Me deixou uma grande lição
Por isso peço a todo Patrão
Que da carreta tem resquícios
Conservem tudo sem comícios
Tenham cuidados concretos
Para mostrar aos seus netos
O sacrifício de épocas passadas
Pra se fazer as carreteadas
Ancestrais quase analfabetos.

Hoje te substituíram por trator
Chegada a tecnologia
Essa é a nova mania
Dos peões mais letrados
Às vezes despreparados
Sofrendo grandes abalos
Potência medida em cavalos
E pra causar maior horror
Todos escondidos num motor
Podendo só os bufos escutá-los!
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  Autor: Paulo Moacir Ferreira Bambil
Poesia enviada Por: Paulo Moacir Ferreira Bambil - Brasília / DF
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25/09/2008 21:14:02 cristofer dresch - Não-Me-Toque / RS - Brasil
Gostei... Até que é útil para eu fazer uma poesia na escola... Valeu!!!
Sítio: *****
03/05/2008 17:16:26 Fernando Almeida - Canoas / RS - Brasil
Meu amigo Paulo Moacir, parabéns pela poesia; está linda! Eu fui carreteiro em São gabriel/RS e também sou poeta. Escrevi um livro de poesias gauchescas com o título Raízes da Tradição.
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