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Leopoldo Rassier:
Pilchas, de Luiz Coronel e Airton Pimentel

 

06/12/2006 17:12:53
RAPAZITO DE ESTÂNCIA
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Nasci numa estância, neste meu Rio Grande.  
Sempre fui da lida e daqui nunca saí.
O mais longe que fui, foi ali na estrada grande,
no bolicho do velho Joaquim.

Nesta Estância eu e meus irmãos nascemos
e na simplicidade fomos criados,
cada um com sua lida. Mas a minha era
cuidar de ovelhas, das galinhas e dos cavalos.

Tudo tinha que estar certinho.
Eu tratava dos cavalos, na madrugadinha; 
debulhava milho pras galinhas; cuidava dos carneiros
e contava quantos tinha.

Mas, se faltasse algum, com tremedeira nas pernas,
um por um eu recontava.
Meu pai não perdoava sumiço, e era no meu lombo
que o mango dele cantava.

O meu pai me fez uma promessa. E eu guardava ela comigo, 
com muita ansiedade:
que quando eu ficasse mocito, de bigode
apontando, me levaria pra conhecer a cidade. 

Eu sonhava com esse dia, esperando ansioso,
mas meu pai não reparava que a minha barba já crescia.
Meio pouca, era verdade, mas se olhasse de ladinho,
já se via os fiapinho, como uma penugem bem macia.

A safra já estava colhida, e pra cidade
o meu pai já havia marcado o dia da partida.
Será que ele já viu o meu bigode? Eu já sou um homezito; 
cuido de tudo solito e quero estar nesta saída.

O carro de boi já estava carregado; o velho já pegava 
um pedaço de fumo, o pala e uns restos de cobre.
Ele já estava partindo... Bem que o meu mano disse 
prá passá bosta de galinha preta na cara, que crescia logo o bigode!

O carro de boi saiu. Eu já estava de cabeça baixa, com uma lágrima já rolando.
Meu pai olhou para traz, viu a minha tristeza 
e disse, gritando: o que tá fazendo parado ai, piá? 
Pegue umas roupas e suba neste carro! 
Tu bem sabes que não gosto de moleza!

Eu me sentei do lado do velho, abraçado com meu borné. 
Meu coração batia disparado, sentido um grande orgulho.
Minha mãe e meus irmãos estavam felizes por mim,
porque sabiam que, enfim, eu ia conhecer um novo mundo.

Viajamos por dois dias, parando de vez em quando.
E fiquei mui admirado quando chegamos na tal cidade.
Mas bah! Que tanta casa juntinha!   
E aqueles guris brincando na rua. Será que  
não têm trabalho? Mas que barbaridade!!!

A Igreja era grande e ficava bem no alto.
Passavam muitas mulheres e homens bem vestidos e arrumados.
Pois aí eu me senti sem jeito. Eles eram diferentes;  
usavam ternos, vestidos floridos, e eram muito perfumados.

Devagarito chegamos no armazém. 
Meu pai foi descarregando os sacos que a gente trazia.
E antes que ele me mandasse, me ocupei logo do oficio.
Fui logo descarregando a nossa mercadoria.
Foi quando eu ouvi as vozes e as rizadas dos piás, 
a me chamar de Zé Carçudo, guaipeca sem dono e de Zé Lingüiça.
Eles eram um monte de piá, tudo engomado, 
com umas roupas esquisitas. Parecia que vinham da missa!
Continuei o meu trabalho, ajudando meu pai.
Mas quando fui me abaixar, senti uma pedrada nas costas.
Os infelizes saíram rindo de mim. Pensei:
- Mas bah! O que tem de mal minha bombacha e minhas botas?

Acabando o serviço, fomos até o bolicho comer alguma coisa.
O pai pediu uma canha e me comprou umas balas de canela.
Foi quando vi, atrás do balcão, a mais bela flor de menina. 
Como pode existir alguém assim, tão bela?

Eu acho que ela deu uma olhada pra mi. 
Mas talves não. Ela não ia olhar pra mim. 
Eu era diferente desses meninos da cidade.
Pensei: vou me amontuar num canto e
esconder as minhas roupas; vou ficar bem quietinho
e olhar ela, bem distante.
Mas passando um tempo, enquanto meu pai conversava
com o seu pai, o  bolicheiro, ela foi se aproximando.
O que será que vai fazer? Vai me chamar de Zé Carçudo, também?
Mas com um jeitinho dengoso, ela logo foi falando:

- Quando eu me casar, quero casar com um peão como tu, 
forte e trabalhador; um peão de verdade,
que usa bombacha larga, botas e chapéu.
Que seja da lida, e não como esses porqueiras da cidade.

Tudo que ela me disse me deixou muito animado,
pois aqui sou novidade por mostrar simplicidade.
Depois disso me levantei pisando firme no chão,  
igual galo em terreiro alheio, e cheio de vaidade pensei com os meus botões:

- Aqui faço uma promessa: quero viver no campo,
dentro da minha simplicidade; ser honesto e mui faceiro.
E pra cidade só volto pra pedir em casamento 
a mais bela flor morena: a filha do bolicheiro!
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  Autor: Inez Domingos Stadler
Poesia enviada Por: Inez Domingos Stadler - Londrina / PR
  Observações: Poesia própia para a declamação de piás juvenis.

 
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